MINISTRA DA CULTURA PORTUGUESA ABRE FEIRA DO LIVRO DE GUADALAJARA COM DISCURSO SOBRE “O VALOR DA LÍNGUA PORTUGUESA COMO ATIVO ECONÓMICO E CULTURAL”

Graça Fonseca está este sábado, dia 24 de novembro, em Guadalajara para participar na inauguração da maior feira do livro do mundo em língua castelhana. “Do Teatro ao Cinema, da Dança à Música, das Artes Plásticas ao Artesanato, à Arquitetura e à Ciência, em todas estas áreas Portugal se faz representar com o que de melhor teve e tem na história da sua Cultura.” Leia aqui o discurso da ministra da Cultura na íntegra.

Diz uma cantiga de D. Dinis, o nosso Rei trovador e, sem grande exagero, o primeiro patrono da cultura portuguesa, que “Quando o vir dos olhos meus,/ que possa aquel dia veer/ que nunca vi maior prazer.” A alegria da chegada é um tema recorrente na nossa primeira poesia, naquele momento em que a literatura e a cultura de Portugal que hoje comemoramos se começaram a definir.

É, por isso, com enorme alegria que vos falo, nesta chegada à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que cada vez mais se consolida como o grande evento do mercado do livro em língua espanhola. Ser o Convidado de Honra representou para nós um desafio, um processo longo e complexo, o qual ultrapassou as fronteiras da cultura, ou melhor, exigiu de nós uma visão transversal de cultura, porque a CULTURA é, também, educação, diplomacia e economia. Vemos, por isso, esta presença como uma oportunidade, centrada no ensejo de dar início a um processo de contactos e de trocas mais frequentes e mais regulares e, acima de tudo, levar o conhecimento de Portugal a camadas muito mais vastas de público.

“O Futuro é a Aurora do Passado”, é este o verso de Teixeira de Pascoaes que serve de lema à participação portuguesa na FIL. Falemos, por isso, um pouco de passado. Portugal e o México têm um passado conjunto, cujas relações diplomáticas remontam há 154 anos, quando o Coronel Francisco Facio apresentou as suas credenciais como primeiro enviado extraordinário do México em Lisboa, perante o nosso Rei D. Luís.

Mas falemos também de futuro, porque é neste cruzamento entre tempos, nesta abrangência, que Portugal se apresenta aqui em Guadalajara, com os seus autores consagrados mas, também os mais jovens, cuja obra é merecedora de ser conhecida, divulgada e traduzida.

O México conhece António Lobo Antunes, galardoado com o Prémio Juan Rulfo, ou Nuno Júdice, poeta, professor e tradutor consagrado no universo da língua espanhola. Mas o México deve conhecer também a poesia de Vasco Gato ou Rui Cóias, tal como a prosa de Alexandra Lucas Coelho, que dedicou ao México um dos seus livros de viagens, e de Ana Margarida de Carvalho, já por duas vezes distinguida com o Grande Prémio de Romance e Novela e vencedora do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.

A leitura e a escrita são um pilar da nossa arquitetura intelectual. Quem lê um livro, lê o homem, como ensina a poesia. É este carácter transversal, capaz de cruzar culturas e geografias, épocas e contextos, o que dá valor universal à grande literatura.

Lembro-me, a este propósito, de Juan Rulfo e do seu Pedro Páramo, ambientado nas paisagens jaliscenas onde o escritor nasceu, mas cujas personagens, em especial a cidade-personagem que é Comala, habitam a ténue fronteira entre o real e o fantasmagórico, expressando a universalidade da esperança, mas também da desilusão e do remorso. A influência desta singular obra na narrativa contemporânea portuguesa não pode ser menosprezada.

No sentido inverso, Octávio Paz, com o seu “Fernando Pessoa o Desconhecido de Si Mesmo”, trouxe para as letras mexicanas a influência de um dos maiores poetas da literatura universal. E, quando se cumprem vinte anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, importa referir que o México sempre acolheu, e de diversas formas, este embaixador da imprescindível irmandade entre as línguas portuguesa e espanhola e entre as culturas que por todo o mundo a representam.

Mas a literatura é, como não poderia deixar de ser, o ponto de partida para muitas outras manifestações culturais que preencherão o programa. Do cinema português trazemos um conjunto de filmes que marcaram o panorama cinematográfico português de forma indelével, muitos dos quais inspirados no nosso universo literário, como é o caso de “Uma Abelha na Chuva”, de Fernando Lopes, “Vale Abraão” de Manoel de Oliveira, ou “O Filme do Desassossego” de João Botelho.

Um mesmo diálogo com a literatura é o mote para a exposição de artesanato que pretende recriar os lenços dos namorados, num cruzamento entre movimentos mexicanos de bordadeiras e a importância do texto no bordado. Ainda no âmbito das exposições, as artes plásticas portuguesas estarão representadas numa das suas mais importantes figuras do século XX, Almada Negreiros, cujo percurso artístico simboliza também a transversalidade da cultura portuguesa que pretendemos destacar.

Do Teatro ao Cinema, da Dança à Música, das Artes Plásticas ao Artesanato, à Arquitetura e à Ciência, em todas estas áreas Portugal se faz representar com o que de melhor teve e tem na história da sua Cultura. Trazemos também dois aspetos da cultura portuguesa em que a longa e rica tradição que os portugueses já conheciam começa agora ocupar o lugar que sabíamos merecer: a gastronomia e a produção de vinho.

A programação que se apresenta olha para o futuro, como quem não se esquiva a uma leitura do passado e consegue recriar o que temos de melhor para o afirmarmos de uma forma contemporânea. E se alguma coisa caracteriza o Portugal contemporâneo é a sua abertura ao Outro e a sua Diversidade: diversidade geográfica, diversidade humana e diversidade cultural. É também essa diversidade que está patente no programa preparado para Guadalajara e que terão oportunidade de ver a partir de hoje. Em todos os eventos a que assistirão há uma vontade de diálogo com o México e a sua Cultura.

Com este programa mostramos um novo país, um Portugal diverso. Este é um dos tesouros por detrás do intercâmbio cultural que se estabelece entre o Convidado de Honra da FIL e o México. Vemos esta nossa participação como um encontro, capaz de potenciar o valor fundamental do diálogo, seja entre futuro e passado, entre consagrado e emergente, seja entre o México e Portugal. É na felicidade destes encontros, e no seu potencial, que nos centramos. Por isso mesmo, trabalhamos para que cresça a relação económica bilateral, nomeadamente no âmbito editorial, onde os números incomparáveis de participantes e visitantes da FIL representam uma oportunidade única para o mercado das editoras.

No mesmo sentido, esta participação pretende demonstrar o valor da língua portuguesa como ativo económico e cultural, com o objetivo de partilhar a importância do relacionamento económico com os países de expressão portuguesa, os programas de difusão da língua portuguesa a nível internacional, a ação cultural externa como ferramenta dinâmica de integração da economia, universidades e outros agentes na promoção conjunta da língua portuguesa e com capacidade de resposta aos desafios da Globalização. Quando mais parecia impossível, o poeta Ruy Belo conseguiu vislumbrar um Portugal futuro, “um país aonde o puro pássaro é possível”, um país onde tudo seria “novo desde os ramos à raiz”. Estamos aqui, hoje, para mostrar que Portugal fez-se um país futuro. Fez-se um país de futuro.


Fonte: Expresso

Sobre O IILP

Objetivos fundamentais: a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais
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