A LÍNGUA PORTUGUESA É MÊMO TOP

Há quem perca demasiado tempo a avaliar sotaques, em vez de perceber que as diferentes pronúncias são o sal e o açúcar do amor à língua.

Esta semana, mais de cinquenta países celebraram o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Após a proclamação da data pela UNESCO em 2019, festejamo-la pela primeira vez num cenário de maior normalidade. Mas o que é a Língua Portuguesa? Quem são os donos da quarta língua mais falada do mundo, quinta língua da Internet? Ninguém. Sabemos, isso sim, que somos 265 milhões de falantes, habitantes deste universo. E isso é mêmo top.

265 milhões. A ONU estima que seremos 400 milhões até 2050, 500 milhões até ao final do século. Contudo, o crescimento da lusofonia não se limita aos falantes de língua-materna. Em 2021, o Instituto Camões ensinou português em 76 países, com destaque para os Estados Unidos, China, Senegal, Espanha, França e Suíça entre aqueles onde a procura mais tem crescido. Só na China, o português é hoje ensinado em 47 universidades, sendo idioma oficial e de trabalho em organizações como a União Europeia, Mercosul ou a Organização Mundial da Saúde. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já assumiu como objetivo torná-lo num idioma oficial das Nações Unidas. Seria, de facto, mêmo top.

Mas nem tudo se limita à estratégia. Para além de um terreno fértil para a economia e a ciência, a academia e a diplomacia, a Língua Portuguesa é um património precioso, é História, é cultura. É literatura. É a partilha de um comum-chão que não olha – não pode olhar – a cores, bandeiras ou geografias. A lusofonia é uma enorme oportunidade, não se limitando a sê-lo. É uma enorme ferramenta, não se limitando a tal. É um cosmos a preservar, a pensar, a discutir. E preservar dá trabalho. Preservar implica ler, escrever, ouvir, falar, cantar, entoar com afinco. A língua é de quem a fala e de quem a vive. Porém, é acima de tudo de quem a preza e de quem a protege. Tal como a natureza, tal como a família. Dá trabalho. Neste caso, é o preço a pagar para sermos mêmo top.

Há quem perca demasiado tempo a avaliar sotaques, em vez de perceber que as diferentes pronúncias são o sal e o açúcar do amor à língua. Preservar a Língua Portuguesa também é saboreá-la nas suas diferentes e infinitas abordagens, como organismo vivo. Preservar é querer aprender, melhorar, falar e escrever melhor. É apreciá-la, corrigi-la à luz das regras – mesmo que deixando espaço -, sermos meticulosos e vigilantes. Não se trata aqui de uma dicotomia “rigor versus desleixo”. Amar a nossa língua é tanto aceitar o seu perpétuo movimento como não deixar passar erros. Se somos amantes da nossa fala, devemos discuti-la e alertar para as gramáticas que a regem. Questioná-las, mas vigiá-las como seus guardiões. Por vezes, espanto-me com quem interpreta uma correção ao seu discurso como um desafio, ou um ataque. Não é. Apontar uma falha (ou aquilo que consideramos sê-lo) é prezar a língua e a pessoa que a proferiu. Chamar a atenção é prestar atenção. E prestar atenção é mêmo top.

Neste ano em que também celebramos o centenário de José Saramago, a universidade mais antiga do Brasil, em Curitiba, inaugura uma cátedra com o seu nome. Para a presidente da Fundação Saramago, Pilar del Río, estar no Brasil para a cerimónia, no Dia da Língua Portuguesa, é “um ato de amor”. Sem dúvida. É o dia dos livros em português, dos filmes em português, mas também das conversas em português, das legendas em português, das traduções para português. É o dia de quem fala sem ter tido oportunidade de saber ler, é o dia dos chatos que não deixam passar uma, o dia de quem está sempre a dizer “incrível”, o dia dos adeptos do Novo Acordo Ortográfico e o de quem ainda escreve “pharmácia”. Acima de tudo, é o dia de quem ama a Língua Portuguesa. E amar a Língua Portuguesa é mêmo top.

Na cerimónia de entrega dos Prémios Play, que coincidiu com esta linda data, Leonor Dias, diretora de imagem e comunicação da Vodafone Portugal, salientou que “premiar a música nacional no Dia da Língua Portuguesa é top”. É muito engraçada a escolha do adjetivo. Lembrei-me instantaneamente de uma ideia do humorista Manuel Cardoso, que constituía em publicar uma versão d’Os Maias em que todos os adjetivos escolhidos por Eça fossem substituídos por “mêmo top”. Exemplo: (…) “e o Ramalhete possuía apenas, ao fundo dum terraço de tijolo, um mêmo top quintal mêmo top, abandonado às ervas mêmo top, com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha mêmo top, um tanque mêmo top” (…)

Cultivemos a Língua Portuguesa, vigiemos o seu uso de espírito aberto. Sejamos implacáveis, procurando honrar e fazer vingar o maravilhoso património comum que é a nossa língua. Falar português é top.

Fonte: Visão

Sobre O IILP

Objetivos fundamentais: a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais
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