CRISTIANE SOARES É A NOVA COORDENADORA DO PROGRAMA DE LÍNGUA PORTUGUESA DE HARVARD

Cristiane concedeu uma entrevista ao Brazilian Times; para explicar sobre os projetos que estão sendo desenvolvidos no Programa de Língua Portuguesa da Harvard, as oportunidades disponíveis para a comunidade e ressaltou a importância de se preservar a língua materna como relevante patrimônio cultural.

A professora esclarece que a dinâmica de vida dos brasileiros nos Estados Unidos nem sempre é favorável para o aprendizado da língua portuguesa: “Eu sei que a realidade da nossa comunidade aqui nem sempre propicia que os pais ensinem português aos seus filhos. Essa é uma tarefa que exige pulso firme e persistência, porque as crianças muitas vezes não querem aprender, porém, existem alunos que expressam pesar por não terem aprendido a língua portuguesa em casa”.

A pesquisadora adverte que falar um idioma está para além das discussões linguísticas, envolve também sérias questões de identidade cultural, “existe um conflito de identidade desses jovens que não se sentem absolutamente americanos e não sabem se podem dizer que são brasileiros. Sentem que a cultura deles é muito mais brasileira que americana, mas porque não conseguem falar bem a língua, têm dúvidas se podem se considerar brasileiros. Às vezes recebemos filhos de brasileiros que não falam português”.

Nessa perspectiva, é importante os pais ficarem atentos sobre a importância de os filhos aprenderem o idioma português, para eles se comunicarem com os familiares que estão no Brasil, inclusive para uma melhor comunicação entre pais e filhos, levando em conta que alguns pais não têm o domínio do inglês. A boa comunicação é uma ferramenta necessária para o bom relacionamento social e familiar.

O programa de língua portuguesa da Harvard oferece cursos de língua e cultura lusófona do nível iniciante ao avançado, e os alunos podem ter uma concentração em português durante a graduação, podendo inclusive, optar por fazer mestrado e doutorado em português na pós-graduação. Quanto a sua mais recente pesquisa, a doutora tem um projeto sobre linguagem não binária, um tema atual e bem controverso, mas que já faz parte da realidade de escolas e universidades nos EUA. Em várias instituições americanas de ensino as pessoas têm o direito de escolher como querem ser chamadas ou quais pronomes querem que sejam usados para se referir a ela. Em inglês se adotou o pronome “they” o qual é usado para as pessoas que não se identificam com os pronomes pessoais “ele” ou “ela” identificando o gênero feminino ou masculino. Conforme esclarece a pesquisadora: “Atualmente a minha pesquisa é sobre o uso de linguagem não binária em português. É um assunto bastante complicado, porém, entendo que exista muita relevância e urgência. Nós educadores precisamos dialogar sobre as opções para o português, especialmente para nós que trabalhamos aqui nos EUA, é uma questão da qual não vamos conseguir nos esquivar por muito tempo. Hoje, nas escolas públicas, é parte dos direitos das crianças escolherem os pronomes que querem usar. Em inglês [o uso de linguagem não binária] é muito mais fácil do que em português, porque a marcação gramatical de gênero em português é muito mais frequente, a gente faz concordância em tudo. Para se ter uma opção em português fica mais complicado”.

A professora esclarece que não está sozinha neste empreendimento. Os estudos são realizados em parceria com a doutora Gláucia Silva, professora na UMass-Dartmouth, e juntas estão realizando uma pesquisa sobre a percepção dos professores em relação à adoção ou não da linguagem não binária para o português.  “Na high scholl, ou seja, no ensino médio, já há muitas crianças que se identificam como não binárias, fico pensando: e o dia que essas pessoas chegarem até à minha sala, o que que eu vou fazer? Elas estão acostumadas a serem chamadas de “They” e quando chegarem à minha sala de aula terão que se identificar como “ele” ou “ela”? Eu não posso fazer isso, não é justo. Além do mais, eles poderão até fazer uma reclamação para a universidade. Hoje em dia, os alunos universitários têm esse direito. Foi a vontade de achar alternativas inclusivas em português que me levou a pesquisar sobre o que fazer, o que usar. A nossa pesquisa agora tem sido uma investigação para saber o que outros professores pensam sobre o assunto”.

A professora adotou esse tema de pesquisa mesmo sabendo que poderia receber muitas críticas. Porém, assume essa responsabilidade profissional como um dever ético. Essa não é uma iniciativa só dela, o primeiro trabalho apresentado foi em parceria com a doutora Gláucia Silva, que é uma sumidade no campo de português como língua estrangeira e como língua de herança, e com a doutora Célia Bianconi, que é coordenadora do programa de português na Boston University. “Sabemos que há uma série de dificuldades, mas não é uma questão apenas linguística, se trata de inclusão e de justiça social”, explica a pesquisadora.

Sobre as atividades extracurriculares em Harvard, Cristiane informa que existem eventos abertos ao público, e vários estão sendo realizados no formato online através do David Rockefeller Center for Latin American Studies (DRCLAS).

O DRCLAS realiza vários eventos gratuitos sobre o Brasil, não só em parceria com o programa de Língua Portuguesa, mas com o departamento de História, Sociologia, Ciências Políticas, entre outros. Para o semestre da primavera, uma série de eventos presenciais já está sendo programada, como workshops de samba, de ritmos brasileiros, e de choro. As pessoas podem obter mais informações sobre esses e outros eventos através do site do DRCLAS: https://drclas.harvard.edu/

Além disso, no outono de 2022 será ofertado o curso de português na comunidade, quando os alunos aprendem sobre as motivações que levaram portugueses, cabo-verdianos e brasileiros a migrarem para os Estados Unidos, e em especial para Massachusetts, e como vivem hoje essas comunidades.

Em suas palavras finais, a professora chama a atenção para um outro aspecto importante que deve ser observado pelos pais quanto à vida escolar e acadêmica dos filhos. Muitas crianças, filhas de brasileiros, às vezes pensam que eles não têm a oportunidade de estudar em universidades aqui nos EUA por uma questão financeira ou de status migratório. “É possível, sim ser aceito e até receber bolsa. Cada instituição tem regras diferentes e aceita alunos com perfis diferentes. É importante que os jovens não pensem que suas opções de estudo acabaram depois da high schooll; existem alternativas. Há organizações, inclusive, que ajudam alunos indocumentados a serem aceitos em excelentes universidades. Permaneçam focados no estudo porque o estudo é importante e se puderem entrar em uma universidade que oferece língua portuguesa, continuem aprendendo sobre a língua e a cultura, nós temos uma língua e uma cultura muito rica”.

Fonte: Brazilian Times

Sobre O IILP

Objetivos fundamentais: a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais
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Uma resposta a CRISTIANE SOARES É A NOVA COORDENADORA DO PROGRAMA DE LÍNGUA PORTUGUESA DE HARVARD

  1. Afrânio da Silva Garcia diz:

    PARABÉNS, CRISTIANE SOARES. VIDA LONGA E PRÓSPERA!

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