LITERATURA LUSÓFONA SE CONECTA POR LÍNGUA, PASSADO COLONIAL E REFERÊNCIAS

Vários autores africanos se inspiraram na produção brasileira em meio à afirmação de suas produções

Literatura lusófona se conecta por língua, passado colonial e referências

Ungulani Ba Ka Khosa, Mia Couto, Pepetela, Valter Hugo Mãe, José Saramago, Conceição Lima, Evel Rocha, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles. Alguns desses nomes são familiares. Outros, nem tanto. Mas todos são escritores de países lusófonos, ou seja, que falam -e escrevem- em português.

A Folha de S.Paulo entrevistou especialistas para entender quais as semelhanças e diferenças entre autores de países tão diferentes quanto, por exemplo, Brasil, Portugal, Moçambique e Angola.

Para José Luís Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra (Portugal), a primeira semelhança é óbvia: a língua e todo o sistema que traz consigo. Mas não só. “É inegável e incontornável, usando uma velha imagem, que há um sistema de vasos comunicantes, do que antes se diziam as ‘influências'”, diz.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é composta por nove Estados-membros: Brasil, Portugal, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Cabo Verde.

Assim como o passado das nações -a língua é comum a todos como resultado do processo colonizatório português na América, na Ásia e na África-, a literatura dos países lusófonos também se interconecta.

“Tenho uma grande dívida com nomes como Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, [Carlos] Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, que, para mim, é o mestre”, disse o escritor moçambicano Mia Couto em 2017, em uma entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo.

Um dos maiores escritores da África lusófona, Mia é conhecido pelo diálogo que seus trabalhos estabelecem (e ele já foi inclusive criticado por isso) com a obra do brasileiro Guimarães Rosa.

Segundo o professor da USP (Universidade de São Paulo) Mario Cesar Lugarinho, especialista em literaturas africanas de língua portuguesa, a libertação tardia das colônias africanas fez com que, no momento de afirmação da sua literatura, o olhar dos autores buscasse o Brasil como inspiração.

“Houve um tempo em que os principais referenciais eram brasileiros ou portugueses, principalmente no tempo de afirmação dessa produção literária, nos anos 1940, 1950 e 1960. Foi superimportante, até porque era uma produção que não era de Portugal, não era docolonizador”, afirma.

Para os autores que descobriram a literatura brasileira, um aspecto chamava a atenção: o fato de eles poderem escrever como falavam. “Eles não precisavam seguir a métrica dos portugueses e podiam criar coisas, pensar outras coisas”, explica Lugarinho, o que não significa que a relação entre “a colônia e a metrópole”, como coloca Laranjeira, da Universidade de Coimbra, tenha sido extinta durante esse período.

Assim, não era incomum que jovens das colônias fossem estudar em Portugal, onde foram muito influenciados pelo neorrealismo local, explica o professor. “É uma literatura surgida na década de 1930, desenvolvida nos anos 1940 e 1950 e que tinha uma visão social da literatura muito semelhante, por exemplo, à de Graciliano Ramos e também à dos primeiros livros de Jorge Amado”, diz.

É importante destacar, claro, que seria simplista considerar que lusófonos inspiram-se somente em outros lusófonos. Há, na produção dos autores, segundo os professores, uma grande influência da literatura francesa, americana e, posteriormente, de nomes africanos, como o do nigeriano Chinua Achebe.

A relação entre as colônias também é um dos elementos da proximidade e da distância das literaturas de países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor Leste e até Macau, devolvida à China em 1999.

“No Brasil, há uma distância histórica. A nossa literatura está num outro caminho, numa outra forma de desenvolvimento, bem distante daquilo que a gente encontra em outras literaturas, inclusive a portuguesa”, diz Lugarinho. “Por outro lado, há uma proximidade na medida em que a gente está lidando com produções literárias oriundas de países da periferia do capitalismo.”

E os leitores, eles são compartilhados entre essas nações? Aqui a resposta é, também, sim e não.”Alguns escritores são mais publicados no Brasil e contam com o afeto do brasileiro, como os angolanos Pepetela, Luandino Vieira, Ana Paula Tavares e Maria Celestina Fernandes, os moçambicanos Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho e Mia Couto, dentre muitos outros”, diz Rosana M. Weg, diretora da editora Kapulana, uma das principais portas de entrada da literatura lusófona africana no país.

“As moçambicanas Noémia de Souza e Paulina Chiziane, por exemplo, têm público certo.”Já em Portugal, diz Laranjeira, os brasileiros e outros falantes do português sempre foram lidos. “Existia até a editora Livros do Brasil, e agora foi publicado o livro da Carolina de Jesus, o ‘Quarto de Despejo’.” A obra da brasileira chegou com 60 anos de atraso, depois de ter sido proibida pela ditadura salazarista.

“A Kapulana, até o momento, publicou obras de escritores africanos cujos originais são em língua portuguesa ou inglesa e tem notado que, cada vez mais, o interesse pela literatura africana aumenta. Nosso catálogo é composto majoritariamente por obras de escritores de Angola e de Moçambique, ou seja, obras em língua portuguesa”, afirma Weg.

“No entanto, a oferta de obras de países africanos no Brasil ainda é pouca, comparada à sua produção, que é diversificada e imensa.”Da mesma forma, acrescenta, autores africanos costumam ser publicados primeiro em Portugal para então serem reproduzidos mundo afora. Mas isso não significa que não seja preciso atenção.

“O ensino das literaturas africanas está a decrescer. Sabemos o tanto que as humanidades sofrem no Brasil e em Portugal, e elas continuam a não ter um prestígio que as literaturas como a francesa e a americana possuem.”


Fonte: O TEMPO

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