CONTAR A HISTÓRIA VIVA DE MACAU ATRAVÉS DA SENSIBILIDADE POÉTICA EM LÍNGUA PORTUGUESA

A antologia poética “Rio das Pérolas” vai ser apresentada hoje na Casa de Vidro da Praça do Tap Seac no âmbito das comemorações do “Junho, mês de Portugal”. No livro, editado pela Ipsis Verbis, participam 24 autores de língua portuguesa com poemas relacionados com Macau. O projecto foi coordenado por António MR Martins e reúne trabalhos de António Graça Abreu, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Henrique Levy ou Carlos Morais José. 

A primeira edição do livro “Rio das Pérolas” vai ser apresentada esta quarta-feira no novo espaço da Casa de Portugal situada na Praça do Tap Seac. A obra é uma colectânea de poesia lusófona contemporânea de 24 autores com ligação a Macau e tem o prefácio assinado por Ana Paula Dias.

 “Radicada nas memórias individuais e colectivas de um património comum de vivências, nela emergem ecos do cruzamento civilizacional com que os poetas aqui representados, portugueses ou de expressão poética em língua portuguesa, coabitam no quotidiano de Macau, perpassando nos seus poemas tradições, locais, paisagens, pessoas, palavras, sabores e sensações que são pertença desta geografia física, humana e cultural”, pode ler-se no prefácio de Ana Paula Dias.

Com uma primeira triagem de 300 exemplares, a obra publicada pela editora Ipsis Verbis surgiu do interesse de António MR Martins em reunir vários trabalhos de autores com fortes ligações a Macau para assinalar os 20 anos da passagem da administração portuguesa no território para a China. Em declarações ao PONTO FINAL, o coordenador de “Rio das Pérolas” começou por explicar que a antologia poética contém uma variedade de sensibilidades poéticas sobre Macau. “Alguns escreveram algo novo, outros endereçaram-me coisas que tinham feito na época em que estiveram cá. Temos o caso do José Drummond que me enviou excertos do livro de poesia dele. O António Duarte Mil-Homens enviou trabalho novo, que nunca foi publicado” referiu António MR Martins, assinalando a importância de reunir várias sensibilidades poéticas num livro sobre Macau. “O livro é subdivido por autor, cada autor apresenta a sua obra, é poesia, numa antologia são várias as vertentes, vários os pensamentos, várias formas de escrita, temos o Henrique Levy que esteve cá há trinta e tal anos. A ideia é contar a história viva de Macau através da poesia, mas para além disso apresentar a sensibilidade das pessoas que estavam antes da passagem, durante a passagem, após a passagem de Macau para a China e na actualidade”.

 “Nos diversos autores e na diversidade dos seus estilos poéticos, Macau, para além da exterioridade concreta do espaço, é o lugar escolhido para interrogarem a legibilidade do mundo, as permanências, as errâncias, as contingências e as transformações que a vida acarreta. Ao percorrerem espaços de diferença e de multiculturalidade, a poesia daqueles que vivem ou passaram pelo Oriente mostra-nos que no processo de confronto com o outro e com a diferença, no embate com a exclusão ou com a aceitação da alteridade, o sujeito pode conhecer-se melhor. A aproximação a espaços tão intrincados e opacos leva em conta que a literatura é inseparável das complexidades culturais e, assim, o poeta identifica-se com outros contornos, sente o apelo de outra realidade e metamorfoseia a sua identidade em função dela”, escreveu Ana Paula Dias no prefácio do livro.

Para além de ter coordenado a obra, António MR Martins também contribuiu com poemas da sua autoria uma vez que escreve sobre Macau desde que chegou pela primeira vez ao território há quatro anos. “Os poemas da minha autoria nesta obra são inéditos, desde 2016 que escrevi muitos. Neste último ano escrevi muitos sobre a pandemia. Foram vinte e tal poemas. As coisas quando têm de sair saem, e saem umas seguidas às outras. Recordo-me que num dia escrevi seis poemas seguidos. Passam para o papel e depois têm de ser moldados, limados. Quando cheguei a Macau disse numa entrevista ao PONTO FINAL, que tinha chegado a outro mundo, parecia que estava noutro mundo, não estava habituado”, recordou o autor português, garantindo que já está totalmente adaptado à nova realidade.

“Os poetas guardam muito na gaveta”

Questionado sobre que impressões de Macau tinham marcado mais o seu trabalho poético, António MR Martins destacou a vista que tem todos os dias para o Rio das Pérolas. “O que me tem marcado mais tem sido o Rio das Pérolas, que é a imagem que eu tenho da janela em casa do meu filho”, afirmou o coordenador da obra, para depois confessar que tem aproveitado para percorrer trilhos na Taipa e tirar fotografias a borboletas. Um dos aspectos que também despertou a atenção de Martins foi a beleza da mulher asiática. “Há muitas coisas que me fascinam aqui em Macau, nomeadamente a mulher asiática, tem aquele olhar e um sorriso singelo, sem maldade. São coisas que ficam e que estão cá no íntimo para nós podermos expressar um dia sobre Macau. Os poetas guardam muito na gaveta para depois poderem expor numa outra altura”, disse.

Sobre o seu processo criativo, António MR Martins fez questão de frisar que segue sempre o antigo acordo ortográfico e que vê a poesia como algo natural. “A poesia sai-me naturalmente. Normalmente tem sido assim: penso escrever, e escrevo. Aparece um pedido para alguma coisa, para uma antologia, quantos poemas querem? E eu escrevo. Ainda agora fui convidado pelo Carlos Arinto para os Cadernos de Poesia Artur Bual 2020. Enviei-lhe oito poemas e ele só me tinha pedido cinco, mas disse-me que ia publicar os oito, portanto, é assim. Não sou muito meticuloso em termos de estar a esculpir o poema em si, mas temos de limar as coisas”, referiu António MR Martins, indicando que o seu universo poético é muito vasto. “Escrevo sobre qualquer temática, aspectos sociais ou desporto. Desta situação pandémica saíram 20 poemas. Não escrevo muito, mas tenho escrito alguns poemas eróticos. Sobre a pandemia, os poemas foram saindo conforme as coisas iam acontecendo. O primeiro poema debruçava-se sobre a habitual conferência de imprensa das 17h00”.

No livro estão publicadas as biografias de cada um dos participantes sendo que a autoria da capa da obra coube ao artista local Eirc Fok. Os 24 autores da compilação de poesia são: Ana Cristina Alves, António Bondoso, António Correia, António Duarte Mil-Homens, António Graça de Abreu, António José Queiroz, António MR Martins, Carlos Morais José, Deusa d’Africa, Dora Nunes Gago, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Francisco Conduto de Pina, Gisela Casimiro, Gisele Wolkoff, Gonçalo Lobo Pinheiro, Henrique Levy, Hirondina Joshua, João Morgado, José Drummond, José Luís Outono, Natalia Borges Polesso, Sara F. Costa e Sellma Luanny.

Leia alguns poemas do Rio das Pérolas, aqui.


Fonte: Ponto Final

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