JEAN ESTÁ A APRENDER PORTUGUÊS E HÁ CADA VEZ MAIS ESTRANGEIROS A FAZER O MESMO

O número de estrangeiros a estudar português no Luxemburgo disparou. Desde miúdos do pré-escolar que querem jogar à bola com os vizinhos até altos quadros de empresas que percebem o potencial global da língua. Só no último ano, houve um aumento de 40% de alunos. Já nos lusófonos, as inscrições caíram a pique na última década.

Os Proust, da qual o pequeno Jean faz parte, impulsionaram o ensino do português para crianças em idade pré-escolar no Luxemburgo.

Há uns meses que a francesa Laure Proust andava incomodada com o muro que havia nas traseiras da sua casa, em Bettembourg. Achava-o feio e inseguro, não gostava nada que ele dividisse o quintal a meio. O que ela queria mesmo era mandá-lo abaixo, mas achava que os vizinhos do lado, uma família cabo-verdiana, se ofenderiam. Tinha esta ideia de que haviam sido eles a levantar aquele paredão.

Um dia o seu filho Jean, na altura com seis anos, entrou na cozinha esbaforido e disse: “Mamã, os nossos vizinhos do lado também não gostam do muro. Eles só não dizem nada porque acham que tu é que o queres no quintal.” Como é que o rapaz podia saber aquilo? “Ouvi-os a conversar, mamã, foi o que eles disseram.”

No ano anterior o rapaz tinha começado a ter aulas de português numa escola no bairro de Clausen, na capital. “Foi ele que nos pediu para aprender a língua”, conta agora a mãe. “No nosso bairro viviam muitas famílias portuguesas e cabo-verdianas – e ele queria perceber o que as outras crianças diziam quando jogavam juntos à bola.”

Os Proust, da qual o pequeno Jean faz parte, impulsionaram o ensino do português para crianças em idade pré-escolar no Luxemburgo.

Não havia no Luxemburgo aulas de português para estrangeiros para crianças em idade pré-escolar, por isso Laure Proust decidiu pedir ao Instituto Camões que as abrissem. “Começámos em 2017/18 a lecionar Português Língua Estrangeira em várias escolas do país, e para todos os níveis de ensino. Daí para cá, os números de inscrições não param de aumentar”, diz Joaquim Prazeres, cordenador do ensino da língua portuguesa no Grão-Ducado.

Se no primeiro ano não eram mais de uma vintena de alunos, no segundo o número subiu para 53 e, este ano, para 84 – um aumento de 37%. “Mas aqui estamos só a contar as incrições lecionadas nos acordos que o Instituto Camões estabelece com as escolas luxemburguesas”, explica Joaquim Prazeres. “Se contarmos com os cursos dados pelas comunas, com os alunos de literatura e cultura portuguesa da Universidade do Luxemburgo e com os centros de línguas do país, podemos seguramente falar em largas centenas de pessoas que estão hoje a aprender português como língua não-materna no Grão-Ducado.”

O mercado lusófono não está aproveitado. As empresas precisam de quem fale a língua. 

Vem gente de todas as idades. “Estes miúdos mais pequenos têm normalmente amigos portugueses e querem saber a língua dos amigos”, diz Emília Fraga Rodrigues, professora na escola de Brill, em Esch-sur-Alzette, para onde Jean Proust agora se mudou. “O ano passado eram dois alunos, agora são seis. E é curioso como eles são extremamente motivados.”

Para os mais novos de todos, os do pré-escolar, Emília tenta que ensinar jogando. Inventou um bingo para saberem dizer o nome das peças de vestuário, usa a música para que vão ganhando noções, “e no outro dia a mãe do Jean comentou comigo que ele já sabia cantar o hino português, mas não o francês.” Sente que as crianças estão a contagiar-se umas às outras e acredita que as inscrições vão crescer exponencialmente. Os sinais parecem dar-lhe razão. Se no ano passado havia seis escolas no Luxemburgo com aulas de português para estrangeiros – três na capital e três em Esch-sur-Alzette –, este ano somam-se aulas em duas escolas de Diekirch, uma em Soleuvre e outra em Vianden. A quarta língua mais falada do planeta está a ganhar adeptos na Europa Central.

Cartas de motivação

O relógio marca 19h de quinta-feira quando Aga Walczak, uma polaca de 36 anos, chega ao Lycée Athénée, na capital luxemburguesa. É aqui que Anabela Albino leciona português como língua estrangeira a um grupo de adultos. Na turma há franceses, italianos, espanhóis, lituanos e, a partir de agora, uma polaca. É o primeiro dia de Aga.

“Oh, eu quis vir estudar a língua porque o meu marido é português”, explica. Apaixonou-se primeiro pelo marido, depois pela gastronomia, agora pelos sons e vocábulos que lhe são estranhos mas, diz ela, “tão melodiosos”. A lituana Vitória Sableviclute, 46, também tem marido lisboeta, mas não é por isso que está nas aulas. “Sou tradutora no Tribunal de Contas Europeu, e o português é uma língua da União.”

Há Graziela de Barba, uma italiana de 65 anos. Foi professora toda a vida, está a planear muitas viagens a Portugal na reforma e por isso quer aprender a língua. E depois há duas espanholas, Marina Nunez e Carla Navarro. A primeira tem 31 anos, veio para o Luxemburgo há sete e trabalha no departamento de crédito de uma consultora. “Há muitas empresas multinacionais que abrem departamentos ibéricos, ou têm um departamento para Portugal, Espanha e América Latina. Ora, o espanhol já eu domino, mas se souber português tenho muito mais probabilidades de conseguir um emprego melhor.”

Carla, 26, trabalha num fundo de investimento. “Especializei-me na área de microfinanciamento em países em desenvolvimento.” Ou seja, atribui pequenos créditos a empreendedores de países pobres, que lhes permitem criar negócios viáveis e resolver a vida. Uma das regiões que mais precisa de apoio, acredita ela, é o continente africano. “Mas muitas empresas não chegam aos países lusófonos por falta de domínio da língua. Há todo um nicho que não está a ser aproveitado.”

A aula começa. Anabela Albino, que veio este ano dar aulas para o Grão-Ducado, distribui cópias do jornal Contacto – a imprensa é uma boa forma de puxar pelas aptidões de conversação. “Tanto quanto sei, o ano passado só tínhamos uma aluna, este ano temos oito”, diz a professora. “Permito-me considerar que fizeram uma escolha feliz. O português é a língua oficial dos nove estados da CPLP, é a quarta língua mais falada do mundo, com mais de 261 millhões de falantes repartidos por todos os continentes. É uma das línguas de trabalho de 32 organizações internacionais e a quinta língua mais utilizada na Internet.”

O português, diz, abre horizontes e portas. E também ajuda a derrubar muros, como um miúdo de sete anos chamado Jean bem provou.

 “Saber português é uma enorme vantagem e quem o fala tem de perceber isso”

Marina Nunez com o livro de português no Lycée Athénée.

Em 2006 havia 4.898 alunos lusófonos a estudar português nas escolas luxemburguesas. Em 2017, o número tinha caído para 2.804 e, desde então, houve uma ligeira melhoria – hoje há 3.081 alunos. “Estancámos a hemorragia, mas a mentalidade tem de mudar”, diz o diretor do ensino português do Luxemburgo, Joaquim Prazeres. “Aprender português de casa não basta, é preciso ir à escola. Estamos a falar de uma das línguas de maior projeção global. Saber português é uma enorme vantagem e quem o fala tem de perceber isso.”

O sangria de alunos deve-se sobretudo ao facto de, em 2006, o Luxemburgo ter limitado o ensino integrado de português nas suas escolas. Ao mesmo tempo que França introduzia o português no currículo geral de línguas estrangeiras (ao lado do inglês, do espanhol, do italiano e do alemão), no Grão-Ducado saiu do horário escolar. Lisboa não gostou: Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros português, dizia em 2017 ao Contacto que o ensino da língua constituía “um problema diplomático sério nas relações bilaterais entre os dois Estados.”

Nesse ano tentou-se atenuar o diferendo com a introdução de um sistema complementar de ensino. Passou a haver educadoras portuguesas no pré-escolar e as escolas básicas e secundárias podem agora dar aulas de português, mas apenas em regime extracurricular. Em muitos casos, as escolas só aderem porque há grupos de pais que se mobilizam e exigem o ensino da língua. “O que temos verificado é que nas escolas luxemburguesas há um discurso desmotivador da aprendizagem do português”, diz Joaquim Prazeres. “Muitos professores aconselham os alunos e os pais a reforçarem o luxemburguês para uma boa integração no país. Mas vários estudos apontam que a capacidade de compreensão das matérias aumenta quando se domina a língua nativa. Mesmo que tudo o resto seja oferecido em luxemburguês, um aluno que constrói o raciocínio em português, sua língua de casa, vai conseguir elaborar melhor o pensamento.”

Foi nesta nova vaga de ensino complementar que apareceram as aulas de português como língua estrangeira. Na escola de Brill, em Esch-sur-Alzette, o curso abriu para alunos mais novos porque uma família francesa, os Proust  mobilizou outras a exigirem a oferta de português na escola. Os estrangeiros que querem aprender português são o grupo que mais cresce. E era essa exigência forasteira de pedir ensino às escolas que Joaquim Prazeres gostava de ver na comunidade portuguesa.

Prazeres tem consciência que a culpa não é toda luxemburguesa. “Nestes mesmos anos houve uma crise económica terrível em Portugal e um período de austeridade que reduziu seriamente a autoestima das pessoas em relação ao seu país”, admite. “Começou a pensar-se que o português de casa, de conversa, era suficiente. E não é.” É como se um mau português acabasse por servir de descrédito, em vez de mais-valia. E num país que acolhe a sede de algumas das maiores multinacionais do globo, talvez não seja de deitar fora a vantagem da língua que disputa com o árabe e o hindi a quarta posição das mais faladas no planeta – atrás apenas do chinês, do inglês e do espanhol.


Fonte: Contacto

 

Sobre O IILP

Objetivos fundamentais: a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais
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