O que se perde com incêndio do Museu da Língua Portuguesa

Foto: Gero / Parceiro / Ag. O Globo

Foto: Gero / Parceiro / Ag. O Globo

Por Jane Tutikian*

O incêndio do Museu da Língua Portuguesa, ocorrido no último dia 21, tomou conta dos noticiários e das redes sociais. Internautas postavam em todos os cantos do país: o Museu está queimando, como que pedindo socorro, ainda que um socorro virtual, feito de solidariedade. Fotos de vários ângulos foram colocadas no ar. Talvez a mais bonita de todas, lutando como Quixote contra as chamas, o grande resistente, o relógio da bela Estação da Luz, patrimônio histórico do século 19.  Havia tristeza. Havia desolação. Era muito mais do que uma notícia.

Fui invadida pelo mesmo sentimento. Havia uma perda em mim – e em nós – e uma perda difícil de decifrar. Estive poucas vezes no Museu da Língua Portuguesa, apenas três, quando estava em São Paulo e o trabalho permitia. E confesso que, nas três vezes, saí de lá em estado de puro encantamento e – por que não dizer? – pulsando de orgulho. Da primeira vez, em 2006, havia a exposição Grande Sertão: Veredas, que comemorava o cinquentenário do romance de Guimarães Rosa. Era a mostra de inauguração do Museu e, por ela, percorri, ao som da voz de Maria Bethânia, o sertão de Riobaldo e de Diadorim, reli o romance nos enormes painéis que reproduziam os originais com correções feitas pelo romancista.

Depois, estive no setor dedicado à língua e seus falantes, à língua e seus povos, as manifestações, os poemas, a história, as projeções de filmes. Mexi nos totens das palavras cruzadas, desbravando idiomas e povos que contribuíram para formar o Português falado no Brasil. Brinquei no jogo etimológico interativo. Me diverti com os falares brasileiros. Li sobre a Estação da Luz nos painéis. Me emocionei com o Planetário da Língua, com a beleza das imagens projetadas e com o som da voz de grandes artistas brasileiros, narrando, declamando.

Voltei no início de 2011 e consegui, ainda, pegar a exposição Fernando Pessoa: Plural como o Universo. Vivi Pessoa-Caeiro-Reis-Campos-Soares e os poemas e a prosa com toda a emoção que sou capaz de viver. Vivi o drama do poeta que disse “para me criar, destruí-me. Tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças.” E percorri, novamente, os depoimentos, as manifestações dos falantes de Língua Portuguesa. Vi e ouvi a sua história.

Em 2014, foi a vez de me perder em Cazuza, Mostra a Sua Cara. Cazuza estava inteiro lá, de Reflexões a Interação. Não me contive e cantei, timidamente, cantei com ele Ideologia e Exagerado, acompanhando as letras e as imagens de computação gráfica projetadas nas imensas telas. Mas nada tão fantástico quanto Cazuza por Cazuza, em que podia escolher, nos grandes livros, um tema e ouvir sobre ele o depoimento daquele cara especial, daquele poeta genial. Não sei quanto tempo permaneci na sala VIII.

Guimarães Rosa disse que “A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive…”. Fernando Pessoa é o autor da mais famosa frase sobre a nossa língua: “Minha pátria é a Língua Portuguesa”. Cazuza revelou a cara que o Brasil custou a mostrar.

De repente, da rememoração, pulo para o agora deste texto e me dou conta do que aconteceu comigo, do que aconteceu conosco, da nossa tristeza, da nossa desolação. O Museu tirou a língua dos círculos restritos, como o da academia, por exemplo, e escancarou-a para o povo e foi um dos Museus mais visitados do Brasil. Duvido que quem lá tenha ido não tenha saído com o mesmo encantamento que eu e duvido que quem lá não tenha podido ir não tenha, em algum momento, sentido o orgulho de termos tido um Museu da Língua Portuguesa, um museu do que somos, porque a língua é, sem dúvida, mude o que mudar – venha globalização, venha multiculturalismo, venha o pós e o pós-pós e suas fronteiras líquidas, venham as crises que vierem – , a língua é a parte mais importante da nossa identidade cultural e nacional. E um Museu inteiro, dedicado à  Língua Portuguesa, esse patrimônio imaterial, ainda que com toda a tecnologia avançada e com todos os recursos interativos, por mais paradoxal que seja, materializava (é essa palavra mesmo) isso. Daí a sensação de perda, daí a desolação trazidas pelo fogo.

Felizmente vivemos no século 21, penso, e, no século 21, tudo pode ser recuperado, o espaço pode ser recuperado!, o conteúdo virtual pode ser recuperado! Só não se recupera o tempo – talvez por isso o velho relógio da Estação da Luz tenha resistido tão bravamente e continue funcionando. Acredito – acreditar é preciso, como navegar e viver – que o Museu voltará renovado como sua cumplicidade com a a Língua Portuguesa que, sendo sempre a mesma, se renova constantemente. “O idioma é a única porta para o infinito,” disse Guimarães Rosa, “mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.” Ouso pensar que as cinzas são temporárias, porque somos quem somos – e quem somos?,  somos a língua que falamos, nossa Pátria, nossa vida, nossa cara.

Fonte: Zero Hora – *Escritora. Diretora do Instituto de Letras da UFRGS

Sobre O IILP

Objetivos fundamentais: a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s