Um Camões mais russo, com Os Lusíadas

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Por José Milhazes*

A primeira tradução de Os Lusíadas para russo estava pronta em 1940, na Leninegrado cercada pelos nazistas. O tradutor morreu no cerco e só hoje, mais 70 anos depois, o épico de Camões chega às livrarias.

A sala da Biblioteca de Línguas Estrangeiras de Moscovo foi pequena para receber tanta gente, principalmente jovens, que  participaram, no último dia 14,  da cerimónia de lançamento da primeira tradução poética para russo de Os Lusíadas.

Esta foi a primeira tradução integral do poema épico de Camões para russo, mas não foi a primeira edição dessa obra em russo por motivos trágicos. A primeira edição de Os Lusíadas, traduzidos por Olga Ovtcherenko, foi publicada nos anos de 1980, enquanto que a tradução de Mikhail Travtchetov foi feita nos anos de 1920 e 1930, mas só chegou aos leitores agora.

Este grande atraso deveu-se ao facto de o tradutor ter entregue à editora Gossizdat o manuscrito em 1940 e o livro não ter sido publicado devido ao Bloqueio de Leninegrado. As tropas de Hitler cercaram a cidade que só não se rendeu graças ao heroísmo dos seus habitantes.

Mikhail Travtchetov teve possibilidade de abandonar a cidade antes do cerco se fechar, mas não o fez, tendo falecido em Leninegrado em Dezembro de 1941, não se sabendo se de fome ou em combate. O fim do poeta português, como é sabido, também foi trágico, porque morreu pobre e esquecido pelo povo que ele cantou.

Depois da Segunda Guerra Mundial (1941-1945), Sofia Dubrovskaia, irmã do tradutor russo, lutou durante 20 anos para que os Lusíadas fossem publicados, mas sem êxito.

Em 2011, quando fazia uma busca na Internet sobre Camões na Rússia, deparei com informações sobre Travtchetov e a sua tradução de Os Lusíadas para russo. Alertados para este facto, o Instituto Camões, a Embaixada de Portugal na Rússia e o Centro de Língua e Cultura Portuguesa de Moscovo juntaram esforços e conseguiram esta proeza de publicar, com grande qualidade gráfica, a maior das obras literárias escritas em português.

A julgar pela forma como os excertos do poema recitados em português e russo foram recebidos pelo público, pode-se concluir que esta edição valeu a pena, tanto mais que foi prometido fazer chegar exemplares de Os Lusíadas às bibliotecas de outras regiões e cidades da Rússia.

* José Milhazes é  jornalista e historiador português. Artigo publiblicado no Observador PT
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