Tecnologia digital para preservar os jornais portugueses do Havaí.

No Havaí, Estado norte-americano situado em meio ao Oceano Pacífico, há uma comunidade lusófona e lusodescendente de cerca de 60 mil habitantes – 4,3% da população, de acordo com o Censo dos Estados Unidos da América.

CaptureCNo século XIX, quando havia o então Reino do Havaí, já estava instalada uma ativa comunidade portuguesa. Vindos dos Açores e da Madeira, eles levaram ao meio do Pacífico as malassadas, o pão doce parecido com as filhós, e o ukulele, instrumento musical de cordas semelhante ao cavaquinho. Duas manifestações culturais portuguesas vistas pelo mundo como genuinamente havaianas.

Essa comunidade portuguesa atravessou metade do planeta e chegou ali a publicar vários jornais com notícias em Língua Portuguesa.

No Havaí, há uma comunidade lusodescendente de cerca de 60 mil habitantes — 4,3% da população do Estado norte-americano, segundo o Censo dos EUA.

Por cinco centavos de dólar uma cópia, os leitores do jornal de Língua Portuguesa O Luso em novembro de 1915 poderiam encontrar histórias de primeira página sobre a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Mexicana sob as manchetes “Notícias da Guerra” e “Notícias do México”.

O semanário de quatro páginas teve a maior circulação dentre os jornais de Língua Portuguesa publicados no Havaí entre 1885 e 1927 e foi o de duração mais longa.
As únicas cópias originais conhecidas de O Luso e de outros oito jornais de Língua Portuguesa da época são parte de uma coleção da Sociedade Histórica do Havaí, alojada nos Arquivos e Sítios Históricos dos Lares Missionários do Havaí.
“É uma coleção rara, ameaçada de extinção”, disse Barbara Dunn, diretora administrativa e bibliotecária da Sociedade. “A informação é valiosa. É uma voz do final do século XIX que está à espera de ser descoberta.”

Como parte da iniciativa de digitalização mais recente desta Sociedade, os jornais serão incluídos no acervo dos Arquivos Luso-Americanos Ferreira-Mendes, da Universidade de Massachusetts em Dartmouth, que já oferece acesso público em linha na Internet de jornais dos Estados de Massachusetts e da Califórnia.O órgão dos arquivos em Dartmouth entrou em contacto com a Sociedade em junho de 2010 para iniciar o projeto, que ajudou a custear após descobrir a existência dos jornais do Havaí através de registos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos [em Washington].

No final da primavera no Havaí [entre maio e junho de 2013], a Sociedade embarcou três volumes empacotados sob medida dos jornais — segurados e avaliados em cerca de 15 mil dólares — para a ArcaSearch, uma empresa do Estado de Minnesota especializada na digitalização de documentos antigos.A ArcaSearch recentemente embarcou de volta os jornais, e as suas páginas delicadas e amareladas foram embrulhadas em um papel à prova de ácidos e retornadas às prateleiras de conservação da Sociedade.De um ponto de vista histórico, Barbara Dunn disse que os jornais refletem o pensamento da comunidade portuguesa do Havaí de finais do século XIX e início do século XX e o que lhe era importante na época.

O primeiro português registado que veio para as ilhas, de acordo com algumas anotações históricas, foi John Elliot de Castro, que navegou para o Havaí em 1814 e eventualmente tornou-se um médico pessoal do rei Kamehameha I [que unificou o arquipélago e fundou o Reino do Havaí em 1810; o reino durou até 1893, quando foi anexado aos Estados Unidos].

Várias ondas de famílias portuguesas imigraram para o Havaí principalmente entre 1878 e 1913 (baseado nos registos náuticos) vindos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar.Eles também eram comerciantes, agricultores, paniolos [vaqueiros do Havaí] e líderes respeitados na comunidade.“É interessante saber quem eram os editores e as casas publicadoras”, disse Barbara Dunn.G. F. Affonso, do semanário da cidade de Hilo chamado A Seta, também trabalhou para o jornal The Honolulu Advertiser, e J. M. de Freitas, da Aurora Hawaiiana, era um membro do conselho eleitoral local.Além de anúncios, desenhados à mão, de empresas tanto de portugueses quanto de norte-americanos — de vinhos por A. Fernandes e de mobiliário pela C. E. Williams & Son —, os jornais ofereciam notícias locais, nacionais e internacionais, juntamente com anúncios de nascimentos, mortes e casamentos.Incluíam ainda cartas dos leitores, anúncios especiais e, por vezes, seleções da literatura portuguesa.

–– “Nove jornais para uma comunidade pequena e iletrada” ––
A arquivista de bibliotecas dos Arquivos Ferreira-Mendes, Sónia Pacheco, diz que a meta da organização é digitalizar todos os jornais e revistas de Língua Portuguesa publicados nos Estados Unidos e torná-los disponíveis em linha na Internet.É preferível escanear os originais em vez de microfilmá-los, disse; e para isso a descoberta dos jornais no Havaí foi estimulante.

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Sónia Pacheco planeia ir ao Estado do Havaí no final do ano, quando os jornais já estiverem disponíveis em linha, para dar uma apresentação sobre como pesquisar nos arquivos. Enquanto o banco de dados será em inglês, os termos de pesquisa devem ser em Língua Portuguesa.

“Muitas pessoas estão familiarizadas com a história, mas não entendem o que está escrito nos exemplares, e o surpreendente é que lá foram nove títulos de jornais para uma comunidade pequena e, em sua maioria, iletrada”, disse. “Para os genealogistas, esta é uma oportunidade enorme. Para os historiadores sociais, isto abre um novo mundo.”

Como parte da primeira fase da digitalização, a Sociedade no ano passado trabalhou juntamente com a Biblioteca Hamilton, da Universidade do Havaí em Manoa, para postar os microfilmes dos jornais ao repositório digital eVols [da universidade havaiana], graças a uma contribuição do Fundo George Mason [de financiamento de projetos académicos do Estado do Havaí].

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Doris Naumu é presidente da Sociedade Histórica Genealógica Portuguesa do Havaí.

O acesso aos jornais será de grande valor, de acordo com Doris Naumu, presidente da Sociedade Histórica Genealógica Portuguesa do Havaí, uma organização sem fins lucrativos gerida por voluntários e que ajuda as pessoas na pesquisa das árvores familiares.“Acho que toda a genealogia agora está melhor com a tecnologia moderna”, disse Doris Naumu.“Agora que estão a ensinar as pessoas como reconhecer traços de seus antepassados, é bom conhecer as histórias, bem como os nomes, porque eles ganham vida para você. É bom aprender tudo isto.”Doris Naumu descobriu, através de listas telefónicas velhas, que o ramo português de sua família gerenciou lojas de joalharia.

As metas da Sociedade Histórica do Havaí são preservar e tornar os jornais históricos mais acessíveis ao público. Com a digitalização dos jornais, o público não precisará manusear as páginas quebradiças, o que lhes causa maior deterioração. E colocando-as em linha na Internet, elas estarão disponíveis para mais pessoas ao redor do mundo.“Assim como a Sociedade Histórica do Havaí, queremos de facto tornar todos estes materiais disponíveis, com acesso livre e aberto”, disse Barbara Dunn.Para a Sociedade, o projeto é apenas o primeiro passo em direção aos esforços de digitalizar todo o seu acervo, que inclui 64 jornais publicados em inglês, havaiano e português.  

(Tradução de Ronaldo Santos Soares.)

Publicada por Arnaldo Norton  em http://www.rosadosventosan.blogspot.pt/
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Uma resposta a Tecnologia digital para preservar os jornais portugueses do Havaí.

  1. lkazachenkova diz:

    Obrigada! Muito interessante e util!

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