Entrevista com Daniel Pimienta

A partir de hoje,  o blogue do IILP irá publicar entrevistas com alguns participantes do “Colóquio Internacional  A Língua Portuguesa na Internet e no Mundo Digital” , que acontece de 24 a 26 de abril próximo, em Guaramiranga, Ceará.

Confira a entrevista com a doutor  Daniel Pimienta, phD em Ciência da Computação, matemático, físico,Presidente da Fundación Redes y Desarrollo ( FUNREDES).

Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.

Eu estudei matemática e ciências da computação em Nice (França), e trabalhei 12 anos como arquiteto de sistemas da IBM. Fui morar na República Dominicana e redirecionei minha carreira para a cooperação internacional a partir de 1988, primeiro como um oficial da União Latina e mais tarde como Chefe do FUNREDES ONG (Networks e Fundação para o Desenvolvimento – ver http://funredes.org), organização que criei junto com os colegas, no ano de 1993.

Temos sido pioneiros no campo das TIC para o desenvolvimento, com foco, desde o início, muito forte, na questão do respeito pela diversidade linguística. Temos também uma tendência a preferir grandes projetos regionais. Entre 1988 e 1995 levamos a cabo o projeto REDALC, apoiado pela Unesco e União Europeia, para a construção de uma rede latino-americana para educação e pesquisa. Em muitos aspectos, foi uma visão inicial do que é hoje a rede CLARA.

Neste quadro, criamos as primeiras redes do Peru, República Dominicana e Haiti, entre 1991 e 1993. Em 1996, começamos a realizar o trabalho de medição das línguas no espaço da Internet que continua até a presente data, com a concepção de um projeto de pesquisa muito ambiciosa que enviamos para o Programa da União Europeia e que deve começar agora em 2012.

O objetivo desse projeto é superar os limites que a evolução dos motores de busca e de crescimento infinito do espaço virtual impôs sobre a possibilidade de caracterizar a Web, particularmente nos seus aspectos linguísticos. Entre 1999 e 2006, definimos e implementamos o projeto MISTICA, que se tornou uma referência internacional para o que é pensar sobre o impacto social das TIC e da comunidade virtual de gerenciamento do aluno. A partir de 2007, a FUNREDES se transformou em um grupo de reflexão e reduziu o seu desenvolvimento de projetos, favorecendo trabalhos de investigação, e serviços de consultoria e aumentando seu comprometimento com a questão da diversidade linguística no mundo digital, com a sua participação no Conselho Diretivo da rede global para a diversidade linguística MAAYA .

2. Como o senhor avalia a situação da língua portuguesa na internet?

Nós não temos dados muito recentes em termos de línguas na web devido aos fatores que acabei de mencionar. No entanto, podemos dizer que o Português ainda tem muito espaço para crescer e ficar numa posição mais de acordo com sua importância como língua internacional. Também podemos dizer que o centro de gravidade do esforço compete ao Brasil.

O Português é a quinta língua na Internet e conta com (82 milhões) de pessoas conectadas, mas este número deve ser balanceado com o número de falantes da língua e só chegou a 32%, que é abaixo da espanhola (terceiro posição, com 39%) ou chinês ( em segunda posição com 37%, apesar de ter começado muito tarde sua entrada na rede). As páginas da Web mais recentes, medidas em 2007, mostrou uma situação ainda mais crítica, crescendo menos do que a produtividade média de línguas e uma produção abaixo de 1 (um sendo o padrão, estabelecendo a proporcionalidade entre as pessoas conectadas e páginas da Web produzidas em um determinado idioma).

Em estudos mais recentes, temos observado que a presença da língua portuguesa é significativa em aplicações Peer to Peer (como Rapidshare) no Tweeter e Skype.

3. O senhor falou à Revista Política Democrática que é preciso medir a diversidade linguística no mundo digital. Como esta medição tem sido feita?

Existem fontes para medir o número aproximado de falantes de algumas línguas conectadas à Internet.Com o conteúdo é que há grandes dificuldades para a produção de indicadores pelas razões acima mencionadas. As formas de fazer essas medidas consistem em explorar as páginas da Web do universo virtual (como fazem os motores de busca para fazer suas indexos) e implementar um algoritmo de reconhecimento de linguagem (executado em uma taxa de erro que foi da ordem 10% há alguns anos e que vem sendo aprimorado BER) ou, como ele fez com o FUNREDES União Latina, utilizando motores de busca para contar as ocorrências de uma amostra de palavras permitidas pelo método estatístico, em seguida, deduzir esses indicadores. O espaço do conteúdo foi analisado em 80%, nos anos anteriores de 2007 e os dois métodos forneceram dados confiáveis. Hoje em dia, os motores para indexar um universo muito mais limitado de conteúdos (abaixo de 20% e caindo), e fornecer dados de contagem, não são confiáveis. E o trabalho de explorar o universo inteiro é impossível, dado o seu tamanho, então isso requer novas experimentações.

4. O que é a Rede Mística?

A rede MISTICA significa “Metodologias e Impacto Social das TICs na América Latina e no Caribe (http://funredes.org/mistica). Ela tem sido um marco na história da Internet na América Latina. Já reuniu cerca de 500 pesquisadores e ativistas na região e interessados na região a partir de outras partes do mundo, para discutirem sobre o impacto social da Internet para o trabalho de reflexão e construção coletiva do conhecimento.

Em 2012, 5 anos depois que a rede foi tirada do ar, as muitas pessoas que estavam no experimento ainda anseiam por este lugar virtual e aguardam o seu retorno. O fluxo de visita ao local era de cerca de meio milhão por mês, e ainda não começou a declinar. Há um enorme capital humano que está concentrado na rede e que é objeto de consultas e estudos.

O projeto conseguiu mover-se em espaços duplos cruzados: uma mão sobre a metodologia, experiências inovadoras, em particular com a gestão de comunidade on-line e do multilingüismo, da comunicação e partilha de informação; outra mão, a investigação (com os documentos valiosos como por exemplo “trabalhar a Internet com uma visão social“) e o ativismo (com amostras reais de defesa da política pública na região).

O site MISTICA é uma mina de ouro virtual em 4 línguas, embora nem todos os documentos tenham sido traduzidos. Para melhor entender as contribuições desta rede pode-se buscar na internet uma apresentação animada ou em artigo acadêmico.

5. Como o senhor percebe o avanço da diversidade linguística na internet?

Finalmente entramos em um tempo de mudança radical e as portas estão abertas a todas as possibilidades. Estamos saindo de um equívoco do Inglês como língua franca da Internet para uma visão do direito de todas as línguas terem sua existência digital e seu conteúdo na Internet. Passamos de monolinguismo triunfante com base no Inglês, para a consciência de que pode ser transformado em uma séria desvantagem.

Essa mudança é o resultado de muitos fatores:

1) o crescimento relativo de utilizadores Inglês de língua de Internet abrandou dramaticamente nos últimos anos como um resultado da penetração de alta deste segmento (cerca de 80% da população nos países desenvolvidos anglófonos está ligado);

2) o impulso para nomes de domínio internacionalizados marca o fim da ditadura do alfabeto latino e abre a caixa de Pandora do multilinguismo na Internet;

3) pessoas que empreenderam a luta contra a exclusão digital estão se conscientizando de que não é apenas uma questão de acesso, mas também conteúdo em idioma.

Estas promessas não devem nos fazer perder a perspectiva de uma abertura colossal. De 6000 a 9000 línguas ainda existentes no mundo, menos de 500 têm uma existência digital (uma codificação que pode representá-los em um computador), a Wikipedia é, de longe, a aplicação que suporta a maior diversidade, tem 264 idiomas. O Google processa cerca de 54 línguas. O caminho para uma justa representação das línguas no mundo virtual, como um espelho do mundo real, é muito longo e difícil. Cada comunidade linguística deve ser responsável por sua participação. Em particular, apenas 33% da população lusófona está ligada à internet .

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Sobre O IILP

Objetivos fundamentais: a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais
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